Eu quebrei um vaso esta manhã. Era um vaso simples, sem muitos ornamentos. Ficava em cima da mureta que separa a copa da cozinha. Ficava ali, um vaso azul e preto, sem muita importância ou se quer criava alguma atenção que pudesse ser notada. Era um vaso que guardava e cuidava de uma rosa, nada mais.

Estava eu num daqueles momentos em que você segue para geladeira sem ter ideia do que vai pegar. Abre-a e fica olhando, procurando sabe-se lá o quê, e fecha. Fechei e me virei para voltar de onde eu havia vindo – lugar de que eu também já não me lembrava -, e foi aí que o vasou se quebrou. Nessa virada sem rumo, esbarrei no dito cujo que caiu no chão.

Vi pedaços, muitos pedaços ao chão. Pedaços que vieram após um estrondo enorme aos ouvidos de todas as criaturinhas pequenas que habitam uma copa e cozinha. Assustei-me, claro, mas a reação estranha foi depois.

Olhei estaticamente cada pedacinho de vaso no chão. Fui hipnotizado por uma incrível visão que me fez pensar no significado dos vasos. Vasos eram simplesmente vasos feitos para cumprirem a função de vaso?

Olhando os caquinhos criados a partir da explosão, vi a constelação mais linda que algum dia alguém já viu. Mais linda do que aquelas que existem nos livros ou as que podemos imaginar naqueles sonhos em que estamos voando. Conforme eu me mexia, a luz de sol que invadia pela fresta da janela era refletida em cada peça por vez fazendo brilhar e piscar, como se as estrelinhas quisessem dizer algo para mim. Como se quisessem ser estrelas de verdade, só esperando uma fada madrinha transformar todas elas em estrelas de verdade. Estrelas não mentem e isso poderia acontecer.

Fiquei minutos ali contemplando a constelação que eu havia criado a partir de um desastre. Havia eu destruído algo tão singelo e transformado aquilo em algo muito belo. Sentia-me um deus. Um deus das cozinhas e vasos, copas e rosas. Ah, a rosa! Esqueci-me da missão que aquele vaso tinha a cumprir: cuidar da rosa.

A rosa estava estirada ao chão bem longe da constelação, como se fosse um anjo rejeitado do paraíso. Ali, no cantinho da parede perto da porta, ela jogada; e flutuava em gravidade zero da cozinha. Não tinha rumo, ficava ali, parada, quase que chegando a lugar nenhum.  Como pode aquele ser, de tamanha beleza, ser rejeitada por pequenas estrelas de mentira?  Ela era de verdade.

Foi aí que pensei em resgatá-la, mas para isso deveria eu cruzar toda aquela constelação, pois havia estrela por todo espaço cozinhal; entre a mesa de vidro e o armário antigo. Ou eu atravessava por cima dos pontinhos brilhantes, ou juntava cada um deles e definiria o destino de uma galáxia inteira. Era um dilema.

Diante daquela bela tristeza, eu não tive muita reação. Fiquei estático, sem conseguir se quer pensar em algo. A mente branca, os pensamentos tão distantes como aquelas estrelas eram agora de um vaso. Havia um vaso, não existe mais. Havia uma rosa bem segura, não existe mais. Por minha culpa, alguém agora sofria. Por minha culpa, criei um universo triste e perfeito. Era tudo o que um deus poderia querer. Era tudo o que eu queria naquele momento.  Foi ai que escolhi o futuro. Deuses fazem isso. Prometem livre arbítrio, mas quando querem, tudo se cria ou acaba. Foi então que num esforço sobrenatural que só um deus pode criar, juntei cada pedaço com uma vassoura e coloquei a rosa num copo com água. Num saquinho de supermercado, lancei as estrelas ao fundo. O fim do universo havia chegado. Desprezei a mais bela arte que eu já havia criado. Era eu o apocalipse das estrelas da cozinha. E ali, no copo alagado, a rosa me fitava sem pudor nenhum. Era ela a dona da pia de mármore. Era a rainha da cozinha. Ao lado das plataformas dos escorredores e torneiras, ela era imponente. Foi aí que me senti bem. Uma rainha me olhava como se fosse amor à primeira vista. Como criança perdida numa paixão platônica. Com certeza me agradecia, idolatrava-me. Era eu um deus de constelações e ela uma rainha de cômodo de casa.

Por três dias a rosa esteve ali, comandando e encantado. Mas como toda boa rainha, chega a hora de passar o trono, pois murchara na manhã de quarta-feira. Dia de nada e coisa nenhuma. Não houve comoção alguma no local com o falecimento da senhora que havia sobrevivido a uma explosão de estrelas e ao fim de uma galáxia. Com a frieza de um descarte, alguém de casa a recolheu e jogou fora; jogou fora a rainha da cozinha.

No outro dia havia um novo vaso ali no local. Não era tão mais bonito ou chamativo que o antigo, mas dentro dele também havia uma rosa. Cheguei perto e abracei uma pétala. Foi aí que percebi o significado de tudo que havia acontecido naquela cozinha. O tamanho da simplicidade que uma rosa e um vaso podem criar. Ao tentar me envolver nas pétalas da rosa, me frustrei e não consegui verter lágrimas. Sorri de tristeza, pois era uma rosa sem vida; era uma rosa de plástico.

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