Eu era o choro,
hoje, eu sou o riso.
Sou o êxtase no tédio;
o incerto no exato.
Fui excesso na falta;
fui vaidade no pudor.
Hoje, o pecado “santificato”;
a liberdade sem rancor.
Era eu o encontro,
hoje a perdição.
Uma droga na abstinência,
fui mais que anfetamina implorada
de todo bom cristão.
Era a neblina na cegueira;
o exagero de amor.
Hoje, a claridade da boa vista;
o teu amado fingidor.
Mais que promessas,
fui bom estrategista.
Agora, o acaso rege meu universo;
praticamente me domina.
Faz-me ser o que o mundo pede;
pouco se desanima.
Do ouvido atento,
eu era o grito.
Hoje, o silêncio que ensurdece,
um deslise no atrito.
Fui andarilho solar – queimei-me a mão.
Chorei como cavaleiro lunar
em companhia da solidão.
Hoje, vago em sonhos noturnos.
Aos que dormem com olhos
abertos, sou o pesadelo
do perdão.
Da nau vivida, sou a vela que some
no fim da imensidão.

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