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 – Você faz o tempo pra mim?

– Tempo?

– O meu passou e eu nem vi…

– Passou?

– Passou…

– Te dou o meu…

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Amigo, lembra você o dia
em que meu choro se misturou ao teu?
No dia em que era mais que certo
a tua despedida?
Senti – na primeira vez –
o peito doer ao deixar
um irmão partir.
Irmão que nunca tive,
mas o acaso da vida me deu.

Amigo! Lembra você o dia
em que a minha caída,
meu desânimo surgiu
e você como um pai, me repreendeu?
E numas poucas palavras,
disse o que nunca numa vida inteira,
alguém havia dito.
E logo, senti o peito queimar
ao deixar um pai partir.
Pai que nunca tive
mas o acaso da vida me deu.

Amigo! Pode o tempo passar,
a distância aumentar
que isso só fará
a nossa amizade crescer.
Sei que não sou o melhor dos amigos,
mas um dia vou poder ser metade
do que você é;
chegar na metade de onde você chegou.
E você vai se orgulhar em dizer
que também é meu amigo.

Foi lá no canto do dia. Bem no cantinho onde a pressa de todos se apressa em apressar-se, que me sentei à beira da calçada e vi o dia crescer e morrer.

Imóvel, vi a fumaça que saía da boca do homem, ficar metade para fora, metade para dentro do prédio no mesmo momento em que o cigarro era desprezado ao chão. Percebi o cão de terno,  gravata e a pasta de documentos importantes pendurada no pescoço, correndo para trabalhar. Quantas pombas existiam ali preenchendo a paisagem. Corriam os apressados, entravam os esperados. O aperto de mãos fechava o negócio; o satisfeito se iludia, o enganador era o violão. O cenário era o mais simplório que se possa imaginar. Não houvera um designer inteligente para desenhar aquilo. Era o acaso, somente o acaso.

E foi nessa apreciação da obra do nada, que eu ri. Ri como criança que se entrega ao palhaço. Eram vários palhaços; palhaços do dia a dia. Palhaços cansados.

Ali, com os joelhos unidos feito irmãos, eu espiava a vaidade que o dia criava. Era o ir e vir da má vontade que desprezava toda vontade. Eram os desejos sufocados pelas obrigações; imposições dos donos de palhaços.

Os longos passos se entrelaçavam com os rasos passos. O grito do vendedor de doces pequenos era sufocado pelos carros de vidros escuros. O sinal fechava, o rebanho andava. Quando no abrir, como que numa cadência ensinada pela luz verde, o rebanho parava. Ah! Como eu ria. Aquilo era um circo com lonas de nuvens. Viam-se fios nas mãos estirados aos céus. Quem manipulava vontades? Quem escreveu tal roteiro?

A criança pedia, a mãe negava. – Quero pegar – implorava esperneando ao chão. – Não! Cuidado com o homem do saco, e o choro era engolido a seco.  Era uma singela tristeza exalada dos olhos preocupados, sufocados em chegar onde o circo exigia.

Por horas do dia, mantive-me ali, imóvel no cantinho egoísta cedido a mim. Permaneci calado a observar e rir, deliciar-me com os passos ensaiados. Quando dei por mim, vi o fim do dia nascer, o dia finalmente morrer. Era a hora das cortinas se fecharem. O espetáculo acabara. À boa casa os artistas retornam. Os pequenos já quase dormem e os estoques de vendas já estão guardados. E eu estava ali, com os calcanhares casados, inerte ao mundo esperando a noite crescer. E foi num súbito perceber que me levantei. E numa última vez, eu ri. Ri com o canto da boca já com pouca força, pois sabia que o dia cederia novamente o seu cantinho mais remoto, mais perdido àquele que tanto gosta de entregar-se a palhaços. Verdadeiros palhaços que fazem rir. Palhaços cansados.

E fim.
O um estirado ao chão ao lado do outro esquecido ao vento. Deixa cada um, um ventre preenchido. Uma esperança não entendida.
Do um, uma garota; uma garota. Do outro, um garoto; um garoto.
Assim, bem mais a frente, frente e frente, nasce o casal.
Aí sim… na brincadeira do acaso a história começou.

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recomeço

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