É uma casa grande, sabe? Essa que eu sempre sonho — disse ele forçando a memória. — Não sei exatamente onde fica. Talvez num litoral qualquer de alguma viagem passada, ou talvez no interior. Eu só sei que sempre entro, vejo uma sala grande e uma escada a esquerda. Onde vai dar a escada? Também não sei. É um sonho, não te esqueças. Raramente me lembro de tudo. Só que dessa vez o que se passou foi mais forte. Eu a vi. É! Ela! Eu entrei não sei vindo de onde e me deparei com ela enxugando os cabelos com uma toalha branca. Viu-me e desviou o olhar. Entrou numa porta que fica no corredor do qual ela vinha. Continuei andando com o estômago nas mãos e um frio que cortava a alma. Passei em frente ao quarto em dois passos; ela estava sentada na cama. Havia algumas roupas no chão e uma televisão ligada. Não. Eu não parei. Por que? Porque o sangue do meu corpo inteiro parecia que ia derreter. Como eu vi tudo isso dentro do quarto? Amigo, não sei. Não questione a mim sobre meus sonhos. Questione Freud, talvez. Enfim, dirigi-me até a cozinha no fim daquele corredor e derrepente dois cães começaram a morder minha perna, mas não para machucar, sabe? Dois cães pequenos. Acho que queriam brincar. Eu não sei porque eu chamei um deles de Mila. Sim. Eu disse: — Para, Mila. Passa! Eu juro que tenho na mente a cara de tristeza dum deles. Acredito que fosse a Mila. Então eles se foram choramingando e eu abri uma geladeira que tinha logo a frente. Peguei, acho, um copo d’água, bebi e acordei derrepente com uma vontade enorme de ir ao banheiro. Oi? Ah, sim! Foi só isso. O quê? O que tem de mais? Amigo, você se esqueceu que eu lhe disse que a vi?

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